quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Figos e Infinito . . .


Toda terra que se avistava era do avô. Bastava olhar o infinito. Dono de quase tudo no lugar. Assim era o Senhor Sebastião, homem alto de cabelos grisalhos e olhos claros. Ainda hoje ela fica a pensar  como era a vida do homem considerado por todos um cidadão rico. Não  tinha paz. Tivera trés filhos. Duas meninas e um homem. As moças cresceram sem sair dali. O filho era surdo e por ele nada se fez. Nunca frequentara  a escola, era tido como deficiente. Não falava corretamente e em razão disso ficava à deriva da vida.
Ao lado do dono das terras em total desarmonia aquela senhora baixinha, que saía andar sozinha por tempos sem fim, era a avó. Corina era o nome dela. A menina lembra de um viver em desarmonia. De nada valiam as terras, o status, se não tinham vida. Havia uma aparência apenas e uma preocupação excessiva com os outros.
Dizia o pai da menina que foi por interesse naquelas terras que resolveu se casar com a filha deles. Como poderia haver felicidade se existias outro motivo que não o amor? Casado pensou na possibilidade de ajudar o sogro e com ele aumentar o patrimônio. Porém, rivalidades, ciúmes, tudo veio atrapalhar o relacionamento de ambos.
A  menina cresceu  ouvindo o pai dizer que o avô acudia os estranhos mas não dava nada para os de casa.Que era mau e avarento. Que os amigos lhe agradavam, faziam pequenas gentilezas e que por eles dava a vida. Não sabe a menina se isto procede. Talvez sim, talvez não. Pense numa família desunida. Pense em pessoas interesseiras. Era assim. E tudo o que o pai condenava se tornou depois. A vida tem essas coisas. Tudo o que vemos como empecilhos poderá ser o que fazemos depois mesmo que nunca venhamos perceber em nós.

 O que a menina aprendeu rapidamente é  que as crianças não podem carregar os egoísmos dos seus pais. Torna-se para elas uma carga muito pesada e lhes dá uma frieza diante da vida no que se refere a sentimentos de amor. Os pequenos deveriam ser deixados de lado em se tratando de desavenças. Aquela era a família de seus avós. Eram as únicas pessoas próximas. Mas sempre ouvia o pai falando mal do sogro, dando o recado sobre suas maldades e não podia haver no coração das crianças o amor pelos avós.Aquele amor de raiz, parentesco, puro amor de família. 
Independente disso tudo que move os humanos e adultos a  menina gostava daqueles passeios na casa dos avós. Lembra que a avó lhes dava balas de côco, feitas com muito açúcar e isso deixava o pai mais nervoso ainda. A ponto de proibir. Mas escondido as meninas comiam os doces. E a avó parecia ser uma pessoa muito cativante. Sempre ela dava um jeito para que as meninas comessem os doces. Isto para elas era um momento de muita alegria. Outra lembrança é que a vó era uma verdadeira colecionadora de  gatos, defensora dos animais, cuidava deles com muita paixão. Contava sempre para as netas que isso incomodava muito seu esposo. E que em determinadas épocas o  avô jogava todos os gatos  no rio para morrerem na correnteza. E então mais uma vez  na mente da menina desfilava um senhor de má reputação, egoísta, bravo, mandão.
Nos fundos da casa havia pêssegos e figos. Eram cheirosos os pêssegos de então. Muitas vezes ajudou a mãe apanhar figos que levava para fazer doces. Numa pedra de cimento tirava a aspereza dos figos e depois viravam doces nas caldas que eram feitas. A vida era tão doce quanto aquelas compotas!
Como era bom sentir o sabor dos doces mas como era triste lembrar as desavenças . Era como se a vida fosse bela demais e as pessoas não soubessem fazer dela uma coisa boa por isso brigavam. Olhar para aquela casa era nunca saber se era bom ou ruim, se podia gostar deles ou não. Há um misto de pranto e riso nessas lembranças. Os adultos conseguem quando querem tirar o brilho dos relacionamentos e passar para os filhos seus próprios sentimentos de amores e desamores. E uma criança é algo para ser construído e não destruído pelas mazelas de alguns. 

Como deveria sentir-se a mãe dela? Era a sua família! A menina não sabe, não teve percepção para isso naquela época.Os pais deveriam guardar suas opiniões a respeito dos familiares para que não contaminassem com esse gesto os sentimentos mais puros de seus filhos.
E sempre haverá nas lembranças a casa de madeira  do avô, o pomar cheio de pássaros e frutos, o gramado imponente , a linha do horizonte demarcando o que era seu, o barulho das pombas no quintal, e o  pé de pêssegos que  cheiroso ficara para sempre nas lembranças dela.
Embora existisse uma nuvem embotando o brilho de um sentimento verdadeiro havia na menina ainda assim o  sentimento de amor pelos avós.Porque amor é algo do indivíduo. O amor é único e pessoal.

E há na paisagem da vida um misto de bom e ruim quando se repensa aquela história que foi boa e foi ruim.

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