A mãe com sua dor isolou-se das meninas. Em seu quarto permanecia todo o tempo. Parecia distante e triste. Era como se ela tivesse percebido que se não tivesse vínculos afetivos com as suas meninas a perda seria mais fácil.Aquela era uma época em que as crianças eram poupadas dos problemas vivenciados pelos seus pais. Só falavam aos filhos o que realmente eles precisavam saber. Não havia meias verdades. Eram usadas as palavras todas mesmo que doesse. Um dia o pai se achegou às meninas e foi logo dizendo com todas as palavras que dali a algum tempo não mais teriam a mãe. Por isso deveriam desapegar-se dela pois o sofrimento seria inevitável. Ela estava e doente sem cura e chegaria o dia em que morreria e então a cada ano que ela comemorasse era para pensar que seria o último aniversário dela. Pensa que essas foram as mais duras palavras? Não! Essas foram palavras para se adquirir postura e fortaleza diante de tudo o mais que pudesse acontecer. Para quem não entendia a dimensão da morte eram palavras frias, apenas frias.
Assim é a vida. A verdade prepara a pessoa. Mesmo que doa a verdade é o melhor remédio para aprender sobre os percalços. A quem muito se poupa muito debilitado será. Coisas de antigamente? Talvez! Mas hoje com tantos tratamentos para a alma as pessoas vivem depressivas e choram problemas nem tão graves.
Começava ali o desencanto das meninas. Quando se perde a mãe o lugar desmorona. É como se mães tivessem em si plantados o alicerce da família. O lugar não era mais o paraíso delas. Sabiam que nada ali seria eterno e que abandonariam por fim aqueles campos, a vida calma, tudo teria um novo rumo. As palavras tristes e duras significam perda. Era preciso acostumar-se à ideia de estar sem, de perder. A lição dura era afastar-se para não criar vínculos.
Mas isso tudo não tirou o brilho do olhar das meninas e nem a vontade de correr pelo gramado, de frequentar a aula da dona Emília, de observar o estojo dos colegas Ari e Neri , de ouvir as histórias da avó que criava gatos e a noite sentar com a familia diante do rádio para escutar o programa de música nativista e ouvir as histórias do pai. Na tristeza a saída é ocupar-se pois a vida é algo tão surpreendente que acaba passando rápida demais.
Tanta vida e tanto tempo nas lembranças da menina... que tão rápido passaram.
Diante da vida mal sabia a menina que teria muito que aprender e que tudo contribuiria para o seu bem. Quão importante para as crianças são as lembranças da sua infância. Quer boas ou más são lembranças de vida. Os tempos em que se aprende, o lugar onde se cresce, as pessoas que estão perto, tudo importa.
Mas as durezas da vida, as tempestades do caminho, são elas que geram a força que move pessoas. A quem muito se poupa, a quem nada se diz, limitamos a capacidade de adquirir resistência para enfrentar suas intempéries depois. Mesmo que doa a vida é para ser dita.
E mesmo que tenha suas dores ela sempre trará amores!
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