terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Crescendo


Enquanto as meninas iam crescendo a vida corria solta mostrando o desfecho. A mãe estava doente. Era algo sem volta. Câncer! As filhas mal sabiam do que teriam que passar pela vida sem o amparo da mãe. Corriam despreocupadas e nem sequer imaginavam a reviravolta que teria a vida delas. Deus concedeu às mães uma psicologia toda especial para lidar com filhos. A mãe segura em torno de si os rebentos. A mãe levanta para cobrir a criança. Ouve o seu sussurro, sabe os seus desejos, adivinha o seu sentir. Quando se fica sem ela o mundo infantil não tem o abraço nem o carinho. Torna-se frio. O mundo perde o sabor do dengo, da conversinha mimosa, das pequenas vontades satisfeitas. Faltando o pai a mãe prossegue a caminhada com os filhos. Poucas se negam a eles. Poucas os deixam sair de perto. E quando as meninas ficam com o pai talvez o homem sinta que esta é uma carga impossível. A tendência é levá-las dali. Desfaz-se o paraíso delas. Foi o que aconteceu com a menina da história. Ela me disse que foi para a casa de uma tia. A outra que tinha apenas três anos foi para a casa de outra tia e a do meio ficou com a avó. Cada menina teve um caminho diferente a trilhar. cada menina recebeu de um lar diferente a educação diferenciada. Cada uma teve a sua história de vida. Ali formou-se o caráter, foram corrigidas. Ali tiveram o amor que se dá aos que precisam dar valor ao lugar como se o lugar não fosse seu. Muito tempo se passou até que puderam se encontrar sob o mesmo teto. Mas a vida não parou no tempo. Ela foi escrita em livros diferentes e com laços diferentes. O tempo porém desfaz os nós e amarra os laços. Um dia foi possível resgatar o sonho de ser uma família! Foi preciso se dar a conhecer. Foi preciso saber amar. Foi preciso entender que o sangue era o mesmo nas veias. Mais uma etapa para o crescimento. Mas ela lembra daquela noite quando o médico chegou. A mãe gemia de dores intensas. Havia um gotejar constante de sangue. O médico aliviou o sofrimento dela com uma injeção. A hemorragia cessou. A noite calma no meio do nada, naquele lugar distante de qualquer socorro prosseguiu e a menina que espiava pela fechadura voltou a dormir.Em tempo algum alguém veio lhe dizer que havia esperança. Ela imaginava que um dia perderia sua mãe porque o próprio pai lhe dissera para não ficar muito perto, para não ficar muito apegada à sua mãe a fim de que não sofresse na sua morte. E desde então a menina sabia que a mãe não seria para sempre e que a vida era dita com a dureza das palavras que cabiam e que não adiantava desesperar-se nas coisas imutáveis da vida. Lições que aprendia. Lições que fortaleceram-na diante das adversidades mas que tornaram-na fria diante das verdades. E crescia a menina sem pensar muito no seu paraíso finito. sabia que um dia sua vida teria um outro rumo qualquer. E por não questionar nada do que lhe acontecia tudo era bem aceito por ela como se precisasse ser dessa forma.


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