terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Cheirinho de hortelãs


Naquela época tinha seis anos mais ou menos. Seu lugar era o paraíso aos olhos dela. A casa de madeira, os móveis amarelos, os pés de cinamomo no quintal, a cerca onde ficavam do lado de lá o cavalo, a vaquinha de leite e o bezerro. O riozinho de águas limpinhas passava ao fundo daquele lugar. Corria pelo gramado, faceira, sem pensar em nada a não ser a brincadeira. Era muito bom estar ali , era o seu lugar, único lugar conhecido. Não pensava nada além dali, não havia nada além dali. A linha do horizonte era o lugar inatingível, impossível, nem ousava pensar que além dali havia vida. 
Cedinho o pai saía. Ia arar a terra, cortar o mato, preparar o plantio. Na sexta feira o homem da fazenda que morava bem distante matava um boi e o pai chegava com a carne. Havia bifes enormes na mesa. As crianças faziam a festa. Na simplicidade havia a fartura. Melado era o adoçante. Galinhas botavam ovos que eram comidos como fonte de vitamina pela manhã. O pão era caseiro. Nada havia melhor que pão com melado. No verão havia pitangas, guabirobas e melancia. A mãe estava em casa. Tinha uma ajudante para o serviço. As meninas corriam pelo gramado, nunca cansavam de brincar. Tudo era lindo, perfeito e ela vivia livre dos medos e de traumas. Foi um tempo curto que sobrou na lembrança do que era o paraíso dela.  Um dia após o outro. A brincadeira de casinha sem brinquedos. Nem boneca havia. As folhas das árvores mais raras eram o dinheiro; pedações de pratos quebrados eram a loucinha. Tudo muito lúdico onde o que enfeitava a vida era a mente aberta para o sonho. Gravetos e tábuas eram armários. E na casinha perfeita a brincadeira rolava por horas e horas. E o dia passava tão rápido que a noite chegava e as crianças ainda tinham muito a brincar. E para o outro dia ficava a promessa de retomar a brincadeira. Nem tecnologia, nem eletricidade. Tudo era feito à luz de lampiões. Só havia espaço e pássaros e ainda relava à vontade para brincar de tudo o que se quisesse. Nas noites havia um momento onde a família estava reunida em volta do rádio. O pai contava as histórias. A mãe ficava andando e dava seus palpites que sempre eram contestados. As crianças não prestavam atenção a detalhes familiares. Pouco sabiam da vida e nunca ousaram pensar em futuro. para elas era o dia, o brinquedo, a alegria. Problemas? Isso não fazia parte da vida delas. Mal sabiam da vida...
O cheiro de hortelãs invadia o universo dela e o sono tomava conta de seu corpo adormecendo para sonhar com fadas e mundos que nem existia e para esperar o dia clarear a fim de correr para a brincadeira por causa do tempo que era curto demais.  E havia muita vida para se viver... Mesmo não tendo brinquedos a emoção da brincadeira se fazia como se tivesse todos os brinquedos do mundo. Não os almejava porque não os conhecia. Eram outros tempos e eram outras as crianças.  Mal sabia ela que a vida é uma escola onde se precisa aprender.
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