quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Aprendendo. . .

A escola ficava perto. Ia a pé atravessando o gramado pela trilha dos passos que já haviam formado um caminho. Dona Emília era a professora. Seu caderno "Companheiro" ia dentro da bolsa de pano que a mãe fizera. No lado de fora havia o lugar do lápis. Nada mais era preciso para aprender. A escola era uma casinha de madeira com uma enorme sala e uma lousa que cobria a parede. Ali ficavam todos os alunos até o quarto ano e cada fileira representava uma série. A arte maior ficava por conta da professora que dominava o conteúdo e a turma mantendo todos em total sintonia. Era um tempo em que se ia à escola com um único objetivo: aprender! Na hora de ir embora ela seguia pensando no que a cartilha dissera: Olavo viu Élida, Élida viu Olavo. Dois irmãos também estudavam ali. Um deles era o Ari e o mais novo chamava-se Neri.O que mais chamava a atenção dela eram os seus estojos. Maravilhoso estojo feito de madeira, com o lugar dos lápis, o espaço delimitado e circular da borracha, enfim, era tudo o que ela gostaria de ter. A cada dia olhava para aqueles meninos e sonhava a vida deles. Introspectiva, calada, do seu mundo, ela contemplava e sonhava sem contar para ninguém. 
A cada semana havia um dia para limpar a classe. Seu pai dera ordens explicitas de que a menina não deveria ajudar. Não podia molhar-se, não podia correr, nada era permitido. Com que insatisfação ela contemplava a vida normal de seus colegas limpando as carteiras, as mesas, lavando o assoalho de madeira, limpando a grande lousa verde escura. Ela ali, parada, paralisada diante das respostas que tinha para sua vida. Isso seria zelo? Seria o medo de seus pais depositados nela? Isso a tornava triste porque a excluía do convívio, a tornava diferente. Numa escola não há nada pior do que ser diferente! Esse é o verdadeiro Builling.Muitas vezes quem impõe isso são os próprios pais. 

Depois da escola a vida era movimento. Andar e correr pelo gramado, escorregar numa descidinha  de grama sobre uma tábua lisa como se fosse papelão, escrever com pequenos pauzinhos em algumas folhas como se fossem cadernos, criar e inventar seus brinquedos e brincadeiras até o momento em que a mãe chamava para o lanche da tarde. Uma enorme fatia de pão com melado de cana ou mel. Se pudesse postar sabores este seria o melhor sabor que já existiu.

E a brincadeira prosseguia até ouvir a buzina do ônibus que se aproximava. Feito trem ele vinha buzinando,  anunciando sua chegada. Eram cinco horas. Corriam as meninas para observar se o ônibus ia ou não parar no pequeno lugar. Quando alguém descia a menina ficava pensando quem era e o que veio fazer. Pensava de onde veio. Pensava que o mundo era tão distante dali.
Só conhecia o seu mundo. E era belo. Havia o sol, as nuvens que formavam desenhos, o lampião que iluminava a noite, a voz do locutor do rádio que vinha de longe, de algum lugar que não sabia, havia os enormes pés de cinamomo que sustentavam seus balanços de corda e assento de madeira, havia o cavalo baio que era velho e manso, havia o sonho na cabeça da menina como se nada dali fosse para sempre e como se a vida um dia levaria dali a sua paz que era tão perfeita.
Enquanto brincava com a irmã a correr pelo gramado, nem ousava imaginar que os caminhos da vida são desconhecidos.
E brincava o tempo todo, saltando livremente, buscando madeirinhas na natureza para fazer sua casinha, os pequenos cacos de pratos que se quebravam eram as louças da brincadeira, latinhas e vidros faziam parte dos brinquedos e a mãe natureza colaborando com suas folhas, pequenas flores e a alegria infinita.
E corriam as meninas diante da simplicidade e da satisfação de um crescer simples, no campo, desprovido da futilidade, sem outro interesse a não ser estar ali e brincar, brincar e brincar.
Quando a noite caía o sono pesado derrubava as meninas que dormiam tranquilas em suas camas com imensas grades.
Tempos de lembranças. Tempo que passou. Crescer é sempre inevitável.

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